da cólera ao silêncio

"(...) Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta (...)" Caio Fernando Abreu "Escrever - e você sabe disso - pode eliminar essa sensação de gratuidade no existir, de coisas o tempo todo fugindo e se transformando em passado. Eu acho então que se escrever te dá um sentido para estar viva (ou a ilusão de um sentido, que importa?), então vai e escreve e diz tudo e rasga o coração, as vísceras, expõe tudo, grita, esperneia - no papel." Caio Fernando Abreu

sabato, novembre 21, 2009
Tem sempre gente espiando a vida alheia, melhor eu ir na frente... Caio Fernando Abreu

 
venerdì, novembre 20, 2009
"Hoje eu desenho o cheiro das árvores."
Manoel de Barros

 
giovedì, novembre 19, 2009

Código de acesso
Itamar Assumpção

Eu não tenho preço
Bem mal te conheço
não estou à venda, menino
Não quero seu cash, ticket, endereço
poupe sua renda e propina
O seu remelexo, seu corpo, seu berço
A sua mansão com piscina
Dispenso o almoço, o incenso, o pescoço
Carrões, porcelana da China
O meu código de acesso, é imenso
É nexo, é dor, é flor
É côncavo, é complexo
É denso, é afago, é amplexo
É o ninho do verso de amor
Não suba que eu desço
Nem reze esse terço
melhor ver se eu tô lá na esquina
Não click esse flash,
recolha seu lenço
Abaixe sua adrenalina
Não quero começo,
seu cheque agradeço
Seu avião com tudo em cima
Seu flat, seu beijo,
tesão do seu desejo,
Seu pé de laranja lima
É meu código de acesso, é intenso
reflexo é som é cor
É múltiplo, é convexo,
é manso é sutil,
sonho é sexo
É uma linda canção de amor



 
mercoledì, novembre 18, 2009
"Quando o poema  chega, é um acontecimento inusitado, uma erupção, como um vulcão. Está tudo bem e de repente ele começa a colocar fogo pela boca."
Ferreira Gullar

 
martedì, novembre 17, 2009

O passado não reconhece o seu lugar: esta sempre presente.
Mário Quintana



 
lunedì, novembre 16, 2009

Noite dos Mascarados
Chico Buarque

- Quem é você?
- Adivinha se gosta de mim
Hoje os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim:
- Quem é você, diga logo...
- ...que eu quero saber o seu jogo
- ...que eu quero morrer no seu bloco...
- ...que eu quero me arder no seu fogo
- Eu sou seresteiro, poeta e cantor
- O meu tempo inteiro, só zombo do amor
- Eu tenho um pandeiro
- Só quero um violão
- Eu nado em dinheiro
- Não tenho um tostão...Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
- Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar
- Eu sou tão menina
- Meu tempo passou
- Eu sou colombina
- Eu sou pierrô
Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar
Que hoje eu sou da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou
Seja você quem for, seja o que Deus quiser
Seja você quem for, seja o que Deus quiser



 
sabato, novembre 14, 2009
- A roseira não assusta você? perguntou suave.
- Esta não: esta tem espinhos.
Vitória franziu as sobrancelhas:
- E que diferença faz se tem espinhos?
- É que só tenho medo, disse Ermelinda com certa voluptuosidade, quando uma flor é bonita demais: sem espinho, toda delicada demais, e toda bonita demais. Clarice Lispector, in A Maçã no Escuro

 
venerdì, novembre 13, 2009
"Teresa, se algum sujeito
bancar o sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele se ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA."

Manuel Bandeira

 
giovedì, novembre 12, 2009
"Como eu saberia que essa cidade foi feita para o amor? Como eu iria saber que seu corpo veste o meu como uma luva? Gosto de você. Que estranho. Gosto de você. Tão devagar de repente. Que doce. Você não pode saber. Você está me destruindo. Você é bom para mim. Tenho tempo. Por favor, me devore."

"Hiroshima mon amour"


 
mercoledì, novembre 11, 2009
"Estamos próximos mas estamos há uma distância incomensurável, estamos próximos mas estamos sós." Ernesto Sábato

 
martedì, novembre 10, 2009

Na Volta Que O Mundo Dá
Vicente Barreto & Paulo César Pinheiro


Um dia eu senti um desejo profundo
De me aventurar nesse mundo
Pra ver onde o mundo vai dar

Saí do meu canto na beira do rio
E fui prum convés de navio
Seguindo pros rumos do mar

Pisei muito porto de língua estrangeira
Amei muita moça solteira
Fiz muita cantiga por lá

Varei cordilheira, geleira e deserto
O mundo pra mim ficou perto
E a terra parou de rodar

Com o tempo
Foi dando uma coisa em meu peito
Um aperto difícil da gente explicar

Saudade, não sei bem de quê
Tristeza, não sei bem por que
Vontade até sem querer de chorar

Angústia de não se entender
Um tédio que a gente nem crê
Anseio de tudo esquecer e voltar

Juntei os meus troços num saco de pano
Telegrafei pro meu mano
Dizendo que ia chegar

Agora aprendi por que o mundo dá volta
Quanto mais a gente se solta
Mais fica no mesmo lugar



 
lunedì, novembre 09, 2009
coração-corpo
tão dilatado
pulsando espesso.
(...)

hilda hilst


 
domenica, novembre 08, 2009
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Carlos Drummond de Andrade

 
venerdì, novembre 06, 2009

Em todos os meus sentimentos
há um silencioso mar.
Ninguém percebe esse marulho
de ondas a agitarem meus pulsos.
Só quando eu amo,
as marés-cheias arrebentam-se
numa profusão de orquestra.
Nesse raro instante, não há
pessoa no mundo que não ouça
essa música a exalar-me pelos poros.

Alexandre Bonafim, Do livro "Sagração das despedidas"



 
giovedì, novembre 05, 2009
"E vento seca, amor enxuga."
Moraes & Galvão , in Guria

 
mercoledì, novembre 04, 2009
"Respiro a única felicidade que sou capaz - uma consciência atenciosa e cordial. Passeio o dia todo (...) cada ser que encontro, cada cheiro dessa rua, tudo é pretexto para amar sem medida. Jovens mulheres supervisionam uma colônia de férias, a trombeta do vendedor de sorvetes, as barracas de frutas, melancias vermelhas com caroços negros, uvas translúcidas e meladas - tantos apoios para quem não sabe ser só. Mas a flauta ácida e terna das cigarras, o perfume de águas e de estrelas que se encontram nas noites de setembro, os caminhos aromáticos entre as árvores de pistache e os juncos - tantos sinais de amor para quem é forçado a ser só."
Albert Camus


 
martedì, novembre 03, 2009

O amor é irracional, eu lembrei pra mim mesma. Quanto mais você ama alguém, menos
sentido as coisas fazem.

Stephenie Meyer



 
lunedì, novembre 02, 2009
"E a moça? De que lugar teria vindo? Que caminhos teria pisado? Que insuspeitadas descobertas teria feito? Tu olharias a moça mas, as perguntas não acorrendo, o mistério que a envolveria seria desfeito - uma moça vestida de azul, sentada no chão de uma praça sem lago. Não poderias saber nada de mais absoluto sobre ela, a não ser ela própria. Fazendo perguntas, tu ouvirias respostas. Nas respostas ela poderia mentir, dissimular, e a realidade que estava sendo, a realidade que agora era, seria quebrada. E pois, não fazendo perguntas, tu aceitarias a moça completamente. Desconhecida, ela seria mais completa que todo um inventário sobre o seu passado. Descobririas que as coisas e as pessoas só o são em totalidade quando não existem perguntas, ou quando essas perguntas não são feitas. Que a maneirar mais absoluta de aceitar alguém ou alguma coisa seria justamente não falar, não perguntar - mas ver. Em silêncio.

Tu verias a moça."


Caio Fernando Abreu

 
domenica, novembre 01, 2009

O tempo, embora faça desabrochar e definhar animais e plantas com assombrosa pontualidade, não tem sobre a alma do homem efeitos tão simples. A alma do homem, aliás, age de forma igualmente estranha sobre o corpo do tempo. Uma hora, alojada no bizarro elemento do espírito humano, pode valer cinquenta ou cem vezes mais que a sua duração medida pelo relógio; em contrapartida, uma hora pode ser fielmente representada no mostrador do espírito por um segundo.

Virginia Woolf, in Orlando



 
sabato, ottobre 31, 2009
Poeta, palhaço, pirata, corisco, errante judeu Dormindo na estrada, no nada, no nada esse mundo é todo meu. Chico Buarque

 
venerdì, ottobre 30, 2009
A suspeita sempre persegue a consciência culpada; o ladrão vê em cada sombra um policial
William Shakespeare

 
giovedì, ottobre 29, 2009
"Saudade é um pouco como fome. só passa quando se come a presença." Clarice Lispector * 7 meses

 
mercoledì, ottobre 28, 2009
"Depois que descobri em mim mesma como é que se pensava, nunca mais pude acreditar no pensamento dos outros." Clarice Lispector

 
lunedì, ottobre 26, 2009

"livrai-me, senhor
de tudo o que for
vazio de amor.
(...)
e mais de quem não
possui nem um grão
de imaginação."

carlos queiroz



 
domenica, ottobre 25, 2009

''Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. (...) Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos (...).''

Manoel de Barros , in Memórias Inventadas: A Infância



 
sabato, ottobre 24, 2009

"Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno do tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha não escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

Me olhas, de perto me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam entre si, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de frangância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta, e eu te sinto tremular contra mim, como um lua na água."

Julio Cortázar



 
venerdì, ottobre 23, 2009
Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas...
Mário Quintana

 
giovedì, ottobre 22, 2009
Aquele que nunca viu a tristeza, nunca reconhecerá a alegria.
Khalil Gibran

 
mercoledì, ottobre 21, 2009
No escuro as palavras não existem não têm porque existir as palavras não precisam. Sendo nem sim nem não nem certos nem sabedoria apenas abandono irreflexão um inominável mesmo o divertimento numa fuga a mímica do coração que escondido agora o que se abre feito enfim ser sem. Que nunca seja tarde a isto ao que se dá a quem que nunca seja tarde assim mesmo a cada vez aquele íntimo olhar olhos fechados este sem rumo uma vagueza boa este sem jeito este ser sem ter mesmo que ser. A cada vez esta primeira vez. Que nunca seja nada nem seja apenas si de tanto a mais. A minha consciência nua absurda crua primitiva inventa sorrisos únicos inventa melodias inventa exaustões e estrelas e a noite acorda a noite faz-se ver.
Luci Collin, in Noir

 
martedì, ottobre 20, 2009

Sabe...

Se por acaso você me encontrar por aí,
meio distante, torcendo meus cachos e roendo as unhas,
é que eu estou pensando em algo melhor,
ou ainda, eu estou amando e isso é bem pior.
É que eu devo estar sonhando ou planejando uma beleza maior,
eu sei não é assim, mas deixa eu acreditar nessa verdade criada por mim e ser feliz.
Se você conseguir olhar em meus olhos, e através deles ver minh'alma,
ou uma luz bonita fica comigo,
senta do meu lado e fica comigo,
me faz feliz.
Sabe, eu...

Fer Solon



 
Desejo dar uma volta por aquelas altas e áridas cordilheiras de montanhas onde se morre de sede e frio, por aquela história "extratemporal", aquele absoluto de tempo e espaço onde não existe homem, nem fera, nem vegetação, onde se fica louco de solidão, com linguagem que é de meras palavras, onde tudo é desengachado, desengrenado, sem articulação com os tempos. Desejo um mundo de homens e mulheres, de árvores que não falem (porque já existe conversa demais no mundo!) de rios que levem a gente a lugares, não rios que sejam lendas, mas rios que ponham a gente em contato com outros homens e mulheres, com arquitetura, religião, plantas, animais - rios que tenham barcos e nos quais os homens se afoguem, mas não se afoguem no mito e lenda e nos livros e poeira do passado, mas no tempo e no espaço e na história. Desejo rios que façam oceanos como Shakespeare e Dante, rios que não se sequem no vazio do passado. Oceanos sim! Tenhamos novos oceanos que apaguem o passado, oceanos que criem novas formações geológicas, novas vistas topográficas e continentes estranhos, aterrizadores, oceanos que destruam e preservem ao mesmo tempo, oceanos nos quais possamos navegar, partir para novas descobertas, novos horizontes. Tenhamos mais oceanos, mais convulsões, mais guerras, mais holocaustos. Tenhamos um mundo de homens e mulheres com dínamos entre as pernas, um mundo de fúria natural, de paixão, ação, drama, sonhos, loucura, um mundo que produza extâse e não peidos secos. Creio hoje mais do que nunca é preciso procurar um livro ainda que de uma só grande página: precisamos procurar fragmentos, lascas, unhas dos dedos dos pés, tudo quanto contenha minério, tudo quanto seja capaz de ressuscitar o corpo e a alma.
Henry Miller

 
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